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Dona Ivone Lara: o legado das mais lindas melodias do samba

Dona Ivone LaraEla aprendeu a cantar com um passarinho, foi a primeira mulher a compor um samba-enredo e só passou a viver de música aos 56 anos. A Dama do Samba deixa uma história rica na cultura brasileira

São Paulo – A sambista Ivone Lara morreu na noite desta segunda-feira (16) no Rio de Janeiro. Ela estava internada havia duas duas semanas para tratar de uma infecção renal, que acabou levando a um quadro de insuficiência cardiorrespiratória. Na última sexta (13), Dona Ivone Lara completou 97 anos.

Nascida em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, de mãe cantora e pai violonista, após os 12 anos foi criada pelos tios, de quem absorveu o gosto pelo samba. Formou-se em Enfermagem, trabalhou com a doutora Nise da Silveira – pioneira do tratamento psiquiátrico humanizado no Brasil – e atuou como assistente social até 1977, quando decidiu se dedicar exclusivamente à música, já aos 56 anos.

Há pouco mais de uma década, em 2007, o compositor Moacyr Luz decidiu produzir um álbum de fotografias de Dona Ivone. Organizador do tradicional Samba do Trabalhador do Renascença Clube, no Andaraí, zona norte do Rio de Janeiro, Moacyr conta que a grande dama do samba só tinha fotos da vida adulta. E que as memórias da infância ficam nos relatos contados por ela mesma.

“Fui encontrar imagem, já enfermeira, dançando miudinho numa plateia de olhos enfeitiçados pela energia da artista. O turbante era a afirmação da raça e a mão na cintura a certeza de que, desse terreiro, Dona Ivone é Iyalorixá”, diz Moacyr, na apresentação de Álbum de Retratos, um livreto de pouco mais de 120 páginas (Ed. Folha Seca), em que narra fotograficamente, com legendas escritas por Zélia Duncan, a vida da primeira mulher a fazer parte de uma ala de compositores de uma escola de samba, a Império Serrano, com Os Cinco Bailes da História do Rio.

Conta a a diva que sua inspiração para o gosto por cantar veio de um passarinho que tinha quando pequena, Tiê era o nome dele. “O canto que essa ave soprou nos ouvidos virou melodia que vem acordando todos os tambores por onde ela passa. Hoje é o canto da rainha negra brasileira”, cuja potência de voz foi descoberta por Heitor Vila-Lobos, no coral regido por sua mulher, a professora de canto Lucília Guimarães. E completa Moacyr: “Ela fala do Cartola como se fosse o Tiê”, numa sentença definidora da natureza de Dona Ivone.

Sem caber em si por ter sido convidada para legendar o álbum, Zélia Duncan assinala a magia do canto de Dona Ivone como algo que faz a melodia transcender de si mesma. “Seus famosos e cobiçados contra-cantos revelam nas canções as mais lindas melodias, que estavam ali sem que ninguém se desse conta (...) Dona Ivone é um sonho meu, um sonho seu, nosso melhor sonho, pois ela é real!"

Dona Ivone casou-se com Oscar Costa, presidente da escola de samba Prazer da Serrinha, com quem teve dois filhos, Alfredo e Odir. Já pela Império Serrano foi a primeira mulher a vencer a disputa de um samba-enredo em 1965, com Os Cinco Bailes da História do Rio. Em 2012, seria ela o tema da escola.

Teve 19 discos discos lançados, e músicas eternizadas também por Maria Bethânia, Elba Ramalho, Criolo, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Arlindo Cruz, Clara Nunes, Roberto Ribeiro, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paula Toller, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Mariene de Castro, Roberta Sá, Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, entre tantos. Acreditar (1976), Alguém Me Avisou (1980) e Sonho Meu (1978) estão entre seus maiores sucessos. Segundo a família, Dona Ivone deixou cerca de 40 canções inéditas.

 

Sonho meu, sonho meu
Vai buscar quem mora longe, sonho meu
Sonho meu, sonho meu
Vai buscar quem mora longe, sonho meu

Vai mostrar esta saudade, sonho meu
Com a sua liberdade, sonho meu
No meu céu a estrela guia se perdeu
E a madrugada fria só me traz melancolia
Sonho meu

Sinto o canto da noite na boca do vento
Fazer a dança das flores no meu pensamento
Traz a pureza de um samba
Sentido, marcado de mágoas de amor
Um samba que mexe o corpo da gente
E o vento vadio embalando a flor

Sonho meu

 

Esta terça-feira (17) tinha tudo para se desdobrar numa madrugada fria que só traz melancolia. Por voltas das 20h de ontem, partiu Paul Singer. Logo depois, Dona Ivone Lara. Só que não. Se a única certeza que se pode ter nesta vida é que todos um dia descansaremos, estão aí dois gênios do Brasil que fazem jus a um merecido e pacífico descanso. E que deixam como herança – cada um em sua seara – uma história de vida e obra que ajuda os brasileiros a lembrar que há, sim, apesar da temporada de ódio que anda solta, razões de sobra para sentir orgulho de suas múltiplas raízes. É, portanto, uma terça-feira de levantar a cabeça e celebrar. Eles se foram, mas o Brasil não os perdeu.

 

*RBA

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