Acordo entre centrais deverá excluir do discurso oficial a situação política do país. Dirigente da Força Sindical falará no próximo dia 8, assim como o ministro do Trabalho

 

Diretor OIT Guy RyderSão Paulo – O representante dos trabalhadores na 105ª Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra, vai fazer sua intervenção na semana que vem ressaltando as ameaças aos direitos sociais, no Brasil e no mundo. “Há uma tendência mundial nessa questão. Estamos vendo isso agora na França. Há um ataque mundial a direitos trabalhistas”, diz Sérgio Luiz Leite, o Serginho, dirigente da Força Sindical e do setor químico, que falará no próximo dia 8. Realizada na sede da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a conferência começou ontem (30) e vai até 10 de junho, com 5 mil delegados dos 187 países-membros.

A situação política brasileira não deverá ser abordada no discurso, devido a um acordo entre as centrais sindicais. Na semana passada, o secretário de Relações Internacionais da Força, Nilton Souza da Silva, o Neco, disse que a entidade tentaria chamar a atenção internacional, durante a conferência, no sentido de que não houve um golpe no Brasil. O delegado oficial dos trabalhadores ressalta, no entanto, que essa oposição não é uma posição da Força, onde se fez opção pela neutralidade, com muitos dirigentes compartilhando a convicção de que o processo foi ilegítimo – o próprio Serginho lembrou ter falado sobre isso durante o recente congresso da Confederação Sindical das Américas (CSA): “Impeachment sem crime de responsabilidade afronta a democracia”.

Para não “rachar” a bancada sindical durante a conferência, ficou acertado que a questão política não será abordada durante o discurso. “Não vamos falar sobre isso na fala oficial”, diz Serginho. No mesmo dia 8, discursará o ministro do Trabalho brasileiro, Ronaldo Nogueira. Pelos empregadores, o delegado é Darci Piana, vice-presidente administrativo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

As centrais sindicais brasileiras devem apoiar a reeleição do diretor-geral da OIT, o britânico Guy Ryder, de origem sindical. Na abertura do evento, ele afirmou que os níveis desigualdade, que já são inaceitáveis, tendem a crescer. “A mesma capacidade de gerar riqueza que dá a oportunidade de deixar a pobreza para trás nos põe sob o risco de nos afastar cada vez mais do objetivo de obter justiça social.”

Outra questão que deverá ser discutida é a denúncia feita pelas centrais brasileiras contra o Estado, por interferência na organização sindical, como vetos do Ministério Público a cobranças de taxas para trabalhadores não sindicalizados. “Há uma afronta à lei de greve, através dos chamados interditos proibitórios”, afirma Serginho, referindo-se ao mecanismo judicial usado largamente por empresas durante paralisações. Além disso, segundo ele, os empregadores têm demitido dirigentes sindicais. O representante brasileiro na conferência da OIT vê ainda “abuso” nas interpretações sobre o que é serviço essencial, para coibir greves.

Ontem, a ministra do Trabalho da África do Sul, Mildred Oliphant, foi eleita presidenta da conferência. Os vices são Luis Ernesto Carles (governo), do Panamá, Alberto Echavarría (empregadores), da Colômbia, e Eric Manzi Mwezi (trabalhadores), de Ruanda.

 

por Vitor Nuzzi, da RBA