Éramos uma jaboticabeira.
Hoje somos um bonsai

Nesta entrevista, o professor livre-docente e pesquisador do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Marcio Pochmann, fala sobre a economia brasileira, a exclusão do jovem do mercado de trabalho e neoliberalismo.

A economia do Brasil vai bem?
Marcio Pochmann – A economia brasileira vem, nos últimos 25 anos, apresentando um desempenho muito aquém do que ela teria possibilidade de implementar. Justamente    
porque o Brasil abandonou o seu compromisso com o crescimento econômico.
Por conta disso tem maior importância nos dias de hoje o combate à inflação do que a expansão da economia, os investimentos em estruturas, o investimento no próprio desenvolvimento nacional. E por conta disso vivemos um quadro de decadência, na medida em que estamos perdendo posição relativa em relação a outros países. É o caso de destacar que em 1980, por exemplo, nós éramos a oitava a economia do mundo; e hoje nós nos encontramos na 14ª posição, justamente porque o ritmo de expansão do Brasil vem, em média, 2,6% ao ano, quando precisaríamos estar crescendo de 5% a 6% ao ano, que é um indicador necessário pelo menos para abrir postos de trabalho suficientes para absorver os 2,3 milhões de pessoas que ingressam anualmente no mercado de trabalho brasileiro.

Pesquisas recentes indicam que o jovem é quase 50% dos desempregados no Brasil.
Marcio Pochmann – Quando falamos na problemática do desemprego estamos falando fundamentalmente de jovens. Para você ter uma idéia de cada duas pessoas desempregadas uma tem menos de 25 anos de idade. Então, inegavelmente, temos uma crise de reprodução social também, na medida em que os jovens, que estão com maior escolaridade do que os jovens de uma ou duas décadas atrás, não encontram oportunidade de trabalho. As ofertas de emprego, na verdade, são com salários muito reduzidos e, na maior parte das vezes, não há, inclusive, a possibilidade de haver um horizonte de ascensão social. Então, essa crise de reprodução social ela está associada não apenas ao próprio desemprego, mas à geração de vagas extremamente precárias para poder incorporar os jovens num processo de ascensão social.

Como se faz um mercado de trabalho “inclusivo”, aquele que inclui os que estão chegando no mercado e que não exclui os que já estão?
Marcio Pochmann – Em relação a essa questão é pertinente considerar não apenas a necessidade, no Brasil, de incorporar recorrentemente mais pessoas porque nós temos uma pressão demográfica significativa. Eu diria que é necessário também considerar o elemento importante que é retirar pessoas que hoje estão no mercado de trabalho e que em tese não deveriam estar. Estão no mercado de trabalho porque a renda é muito baixa, o rendimento da sua família é muito reduzido. E termina então tendo um segmento que está hoje pressionando o mercado de trabalho. Também é o caso de quase cinco milhões de crianças e adolescentes, inferiores a 16 anos de idade, que, segundo a lei, não poderiam estar trabalhando, mas estão no mercado de trabalho. Nós temos um terço de aposentados e pensionistas que, embora tenham acesso à Previdência Social, continuam trabalhando. Nós temos praticamente a cada dois trabalhadores ocupados, um com jornada de trabalho acima de 44 horas semanais. E ainda nós temos uma coisa como 3,2 milhões de trabalhadores com mais de dois ou três postos de trabalho. Há muitas pessoas que estão trabalhando demasiadamente, ou seja, temos uma péssima distribuição do tempo de trabalho e isso faz com que alguns tenham muito trabalho e outros, muito pouco. Então ao meu modo de ver é necessário “redivir” esse tempo de trabalho.

O Brasil precisa repetir políticas econômicas de outros países para dar certo?
Marcio Pochmann – Cada país precisa escolher o seu próprio caminho. De certa maneira acompanhamos o desempenho da China, que tem sido um país, junto com a Índia, apresentado um desempenho muito alto em termos de expansão econômica. Mas o Brasil já foi a China entre 1930 e 1970. Estou dizendo que há alternativas ao que o pensamento único nos induz de que não tem alternativa, de que o modelo econômico é esse, basicamente o combate à inflação como meta de política macroeconômica. Há alternativas sim. Estamos vendo outros países apresentando crescimento econômico bastante significativo, baixa taxa de inflação, melhorando sua posição relativa no comércio mundial, ao contrário do que estamos verificando no Brasil. Se nós olharmos o movimento da globalização hoje perceberemos que temos no mundo dois grandes blocos de países perdedores: os africanos e os latino-americanos. São países que vêm perdendo participação relativa seja no comércio mundial, seja, sobretudo, nos investimentos em novas tecnologias.

Como se faz justiça social na economia de mercado?
Marcio Pochmann – O capitalismo é produtor e gerador de desigualdade e exclusão social. No entanto, ele tem um elemento importante que é a capacidade de gerar riqueza, capacidade dinâmica em termos de expansão, que necessariamente não percebemos em outros modos de produção. O desafio está justamente em combinar essa capacidade de gerar riqueza e crescimento econômico com distribuição de renda. O mercado é incapaz de fazer uma boa distribuição de renda. Nesse sentido, é fundamental o papel do Estado, da sociedade, das instituições como os sindicatos, os partidos políticos, em procurar em “redividir” os frutos do crescimento econômico. O caso brasileiro atual nós não apenas temos um baixo crescimento econômico como estamos fazendo prevalecer um modelo de péssima distribuição de renda.

Uma nota para o neoliberalismo?
Marcio Pochmann – O neoliberalismo no Brasil nos fez pensar pequeno. O Brasil até o final dos anos 70 era uma jaboticabeira, uma árvore que crescia muito, frondosa, ocupava espaço; e de 1980 para cá, especialmente quando houve a opção para o neoliberalismo, o país abandonou o caminho da Jaboticabeira para se transformar num bonsai. Todo dia, todo mês, todo ano têm os gestores cortando os galhos, as folhinhas, os brotos que permitiriam essa árvore crescer. O neoliberalismo é isso, ele nos aprisionou a sermos apenas e tão somente uma planta como o bonsai.