Greve política: e qual o problema?

Quem tem medo da organização do trabalhador? Quem tem medo do trabalhador consciente? Quem tem medo da greve política? No dia 15 de agosto, fomos “invadidos” pelas notícias de que São Paulo, a Capital, tinha parado. Os metroviários paralisaram suas atividades por 24 horas. Uma greve política? Sim, qual o problema? Por que o trabalhador não pode se meter em questões políticas que dizem respeito à sociedade? Ou ações políticas do Estado, que trazem prejuízo para a sociedade, devem ser “engolidas” por todos nós? E ainda pedirmos bis?

A mediocridade que se segue quando o trabalhador pára ou se agita um pouquinho mais é impressionante. Vemos um “desfile” de editoriais indignados em jornais, apresentadores de TV com falas dramáticas e por aí vai. As notícias só falam nos prejuízos causados pelo movimento.
O que a imprensa, de um modo geral, não explica, ou, deliberadamente, não quer explicar, é o “outro lado” da moeda. Qual o prejuízo verdadeiro, não da paralisação, mas da atitude do governo que provocou o movimento.
Pois é, vamos entender um pouco mais o movimento do dia 15 de agosto. Ao contrário do que querem nos impor como “senso comum”, não vemos os trabalhadores como baderneiros, insensíveis, radicais ou outros adjetivos negativos. Bem ao contrário, agradecemos os trabalhadores que ainda se indignam e mostram que não “somos analfabetos políticos”.
Entrevistamos o dirigente sindical Wagner Fajardo Pereira, presidente da Federação Nacional dos Metroviários (Fenametro), filiada à CUT, sobre a greve do dia 15. Como ele mesmo diz, uma greve política, porque todas as greves são políticas.

Por que os metroviários pararam no dia 15 de agosto?
Wagner Fajardo – O governo estadual e o Metrô estão promovendo um processo de Parceria Público Privada (PPP) em que o Estado banca 73% dos investimentos e a iniciativa privada banca apenas 27%, mas fica “dona”, isto é, com o serviço concedido por 30 anos, e com os lucros garantidos por manobras contratuais que garantem reajustes da remuneração ao “parceiro privado”, mesmo que as tarifas não sejam reajustadas. Como o Metrô, mesmo com a possibilidade de ser derrotado na justiça, resolveu realizar a abertura dos envelopes da licitação e anunciar o consórcio ganhador, não restou outra alternativa aos metroviários senão denunciar o processo de privatização da linha 4 (Amarela), realizando a greve e demonstrando nossa indignação.

Muitos jornais classificaram a greve como política. Foi mesmo uma greve política? O trabalhador não pode fazer greve política?
Wagner Fajardo – Primeiro é bom lembrar que toda greve é política, pois ela tem o objetivo de contestar decisões políticas e econômicas de patrões, sejam eles privados ou públicos. No caso específico de nossa greve do dia 15, estávamos contestando a política de expansão da Cia. do Metrô e do Governo do Estado, que dá de presente para um operador privado, durante 30 anos e com lucro garantido sem nenhum risco, a exploração dos serviços metroviários.

O jornal O Estado de S.Paulo publicou o editorial “A punição dos metroviários”, no dia 25 último, apoiando a decisão do Ministério Público (MP) Estadual que “anunciou a abertura de uma ação civil pública contra o sindicato da categoria, exigindo uma indenização de R$ 70 milhões, no mínimo, pelos prejuízos causados à população”. A greve dos metroviários realmente causou esse prejuízo?
Wagner Fajardo – Há controvérsias. Primeiro que este prejuízo, se houve, não pode ser atribuído à categoria, pois o Estado e o Município de São Paulo têm o dever de garantir meios alternativos de transporte quando um dos sistemas não funciona. Em segundo lugar o MP não fez nenhum movimento neste sentido quando nos dias em que houve ataque do PCC, e a cidade só dispôs dos serviços metroviários e os empresários de transporte e a prefeitura que nada fizeram para garantir a locomoção da população. Na nossa opinião, o prejuízo que a população e o Estado vão sofrer com esta concessão é muito mais significativo que qualquer valor que se atribua de prejuizo à cidade por um dia de greve. Estamos falando de um contrato de 1 bilhão e 300 mil dólares e de recursos de aproximadamente R$ 45 mil diários, durante 30 longos anos.

Qual o maior prejuízo, e que não se fala, com a transação de parceria com a iniciativa privada para explorar a Linha 4 (Amarela) do Metrô?
Wagner Fajardo – Vou apenas relacionar alguns pontos que consideramos “leoninos” do contrato:
* O governo do Estado investirá mais de US$ 922 milhões, ou acima de 73% dos recursos;
* A iniciativa privada investirá menos de US$ 340 milhões, ou abaixo de 27% do total;
* O Metrô pagará o lucro prometido caso a arrecadação tarifária não atinja a meta estabelecida durante os 30 anos de concessão;
* O Metrô abrirá mão de todo o rendimento dos empreendimentos associados nas estações e arredores, tais como lojas, shoppings, estacionamentos, publicidades, etc;
* A tarifa de remuneração do concessionário sofrerá reajuste superior ao reajuste da tarifa praticada nas bilheterias, criando um subsídio crescente ao longo dos 30 anos;
* O Metrô terá de construir sozinho o trecho de metrô de Vila Sônia até Taboão da Serra após 2012. Este recurso não está computado nos US$ 922 milhões empenhados na concessão;
* O Metrô terá de investir na modernização da Linha C da CPTM, para garantir aumento de demanda para o concessionário. Caso não faça isso, terá de indenizar pagando o valor referente às viagens não realizadas. Este recurso não está contabilizado nos US$ 922 milhões empenhados na concessão;
* Não está garantido que o concessionário terá de comprar os 29 trens que constam no edital, gastando menos de US$ 340 milhões;
* A empresa vencedora da licitação receberá do governo o valor de R$ 75 milhões para operar a Linha 4 – Amarela, fora as vantagens acima descritas;
* Os trens vão circular sem operadores;
* Haverá apenas um funcionário por estação;
* O Corpo de Segurança será reduzido.

Como ficou essa história depois da paralisação?
Wagner Fajardo – Estamos dependendo de um julgamento do processo na Justiça, que ainda pode suspender todo o processo.

Qual a melhor política para o Metrô no sentido de melhor atender à população?
Wagner Fajardo – No nosso entender o Metrô tem de ser público, estatal e de qualidade. Público e estatal porque o transporte público é um direito essencial de toda a população e não pode ser instrumento de lucro, que encarece o serviço e impossibilita o acesso aos setores mais pobres do povo. Hoje no Brasil um terço da população anda a pé, não por opção, mas porque não tem recursos para pagar a tarifa.

O metroviário está contra ou a favor da população?
Wagner Fajardo – Não tenha dúvida, o metroviário está do lado do povo trabalhador. Luta por seus direitos, luta contra as injustiças, mas os metroviários sempre lutaram contra a degradação do Metrô, contra a precarização dos serviços e sempre defendeu um transporte barato, de qualidade e acessível a todos os trabalhadores.