Como era de se esperar a exibição do documentário “Falcão – Meninos do Tráfico” no “Fantástico” em 19/03/2006 está provocando muita polêmica. A produção é do rapper MV Bill e do empresário Celso Athayde. Milhões de telespectadores viram mais de perto a vida de crianças que trabalham para o tráfico de drogas. Ficaram assustados ao saber que antes que se tornem adultos, a grande maioria deles será morta no desempenho de suas funções ilegais e perigosas. A prova é que dos 17 jovens entrevistados pelo documentário, apenas um sobreviveu.
….

Além do costumeiro debate sobre as razões e meios de evitar que esses jovens vivam tão mal e morram cedo, o que muito olham com desconfiança é o fato de um dos programas de maior audiência da tevê brasileira ter dedicado quase uma hora ao tema. Afinal, estamos falando da Rede Globo, cuja fama é a da simplificação da realidade social e da distorção sobre os males que atingem as camadas mais pobres da população.

Uma primeira conclusão poderia ser a de que, independente das intenções dos produtores do documentário, a exibição da vida triste e desesperançada dos meninos seria uma forma disfarçada de justificar a utilização das forças do Exército nos morros e periferias das grandes cidades. Mas, há quem diga que, talvez, o efeito seja o de mostrar que a força física pode pouco em uma situação como essas. Haveria, então, uma conscientização de que garotos precisam de família estruturadas, escolas, lazer, informação, cultura, esporte etc. Pode ser. E pode ser também que este seja mais um exemplo da maneira sofisticada com que a Globo vem abordando problemas sociais, mesmo que continue fazê-lo a partir de um olhar conservador. Afinal, onde é que estão, não apenas os traficantes, mas também a clientela desse negócio que é rentável na produção, mas também caro no consumo? A não ser que os depoimentos de alguns astros da Globo sejam uma forma disfarçada de fazer representar o lado consumidor da transação. Onde está a ação do Estado que é presente na repressão indiscriminada e na corrupção, mas omissa quanto a investimentos sociais?

É preciso assistir à versão que vai ao cinema. Mas, mesmo que seja a mesma, o fato é que pode ter sido escolhida pela Globo, exatamente porque capricha no tom emotivo e revoltante, mas pouco explica sobre as engrenagens dessa máquina de moer crianças. Um mecanismo que está longe de funcionar apenas nos morros e subúrbios e tem seu motor principal nos palácios e mansões dos bairros ricos. Ao contrário de fazer isso, as atrações da Globo durante toda a semana repercutiram o documentário em um tom quase filantrópico. E a caricatura mais grotesca foi o presente que o Programa do Faustão do dia 26/03 deu ao único sobrevivente dentre aqueles que participaram da produção. O garoto sonhava ser palhaço. Agora, seu sonho pode virar realidade graças ao ator Marcos Frota e ao dono de circo Beto Carreiro, que lhe ofereceram um curso e um emprego.

Ao que parece, MV Bill pode estar colaborando, mesmo que involuntariamente, para que a Globo nos mostre uma nova e sofisticada forma de manipulação. Antes, nos tempos da ditadura, ela omitia e escondia. Hoje, há liberdade para fazer críticas, mas somente se capacitam para o debate os elementos que passam pelas imagens e sons da emissora. Parece um seqüestro da possibilidade de debater e buscar soluções. Às comunidades, estudiosos, lideranças sociais, resta debater somente nos termos que foram pautados pelos aparelhos da grande mídia.

Sérgio Domingues é sociólogo – Março de 2006