
Por Cyntia Ruiz Braga e Marcus Gama no Migalhas
O debate contemporâneo sobre jornada de trabalho no Brasil deixou de ser apenas econômico. Tornou-se humano, social e, cada vez mais, civilizatório. A antiga discussão sobre “quantas horas se trabalha” passou a dividir espaço com outra, muito mais profunda: em que condições emocionais, psicológicas e existenciais as pessoas estão sobrevivendo dentro do trabalho.
Sob uma perspectiva ética — inclusive bíblica — o trabalho jamais foi concebido como instrumento de adoecimento ou degradação humana. As Escrituras estabelecem que “o trabalhador é digno do seu salário” (1Tm 5:18; Lc 10:7), reconhecendo simultaneamente a dignidade do labor e a necessidade de justa contraprestação. O trabalho, em sua essência, possui dimensão edificante, social e moral. Contudo, a realidade contemporânea demonstra crescente distanciamento entre esse ideal e a prática concreta das relações produtivas.
Os dados mais recentes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelam um paradoxo relevante. O mercado de trabalho brasileiro vive um momento de aquecimento importante, com redução histórica do desemprego para 5,1% no quarto trimestre de 2025 — o menor índice da série histórica da PNAD Contínua. Houve crescimento da formalização, expansão dos empregos com carteira assinada e redução da subocupação por insuficiência de horas. Entretanto, esse avanço quantitativo não necessariamente corresponde à melhoria qualitativa das condições de trabalho. O próprio estudo demonstra que o crescimento da ocupação se concentrou justamente em setores marcados por elevada pressão emocional, hiperconectividade, metas permanentes e intensificação cognitiva, especialmente nas áreas de saúde, educação, tecnologia, serviços financeiros e serviços empresariais.
O novo trabalhador já não adoece apenas pela exaustão física decorrente da longa jornada tradicional. Ele adoece mentalmente.
Nesse contexto, o debate sobre a revisão ou superação da jornada 6×1 ultrapassa a mera discussão sindical ou econômica. A controvérsia revela uma crise mais profunda: a dificuldade contemporânea de estabelecer limites humanos à lógica permanente da produtividade.
A tecnologia dissolveu fronteiras entre tempo de trabalho e vida privada. O trabalho invade o descanso, os finais de semana, o ambiente doméstico e até mesmo a saúde mental dos indivíduos. Em muitos setores, sobretudo nos serviços e atividades digitais, a jornada formal já não corresponde à jornada efetivamente vivida.
É justamente nesse ponto que a crítica do professor e sociólogo francês Vincent de Gaulejac assume enorme relevância contemporânea. Em sua obra Gestão como Doença Social, o autor sustenta que a ideologia gerencialista passou a preencher o vazio ético deixado pelo capitalismo moderno após sua dissociação da ética protestante, anteriormente responsável por conferir legitimidade moral ao próprio sistema econômico. Segundo Gaulejac:
“A ideologia gerencialista preenche o vazio ético do capitalismo a partir do momento em que este se dissociou da ética protestante, que fundava sua legitimidade. O poder gerencialista se desenvolve diante do duplo movimento de abstração e de desterritorialização do capital, do qual não sabemos mais exatamente quem o possui. Nesse contexto, os negócios se desenvolvem, a ética de resultado substitui a moral, o projeto capitalista procura em si mesmo sua própria finalidade”.
A reflexão é particularmente atual diante dos indicadores brasileiros de saúde mental no trabalho. Em 2024, o INSS registrou 472.328 afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, representando aumento de 68% em relação ao ano anterior. Paralelamente, cresceram significativamente as denúncias de assédio moral e sexual perante o Ministério Público do Trabalho.
Não por acaso, a NR-1 passou a exigir a inclusão obrigatória dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos das empresas. A alteração normativa representa verdadeiro reconhecimento institucional de que saúde mental deixou de ser mera pauta de recursos humanos para tornar-se questão de governança corporativa, compliance e sustentabilidade organizacional.
Entretanto, existe um aspecto ainda menos discutido e talvez mais preocupante: o trabalhador permanentemente cansado perde não apenas qualidade de vida, mas também capacidade concreta de evolução intelectual, profissional e econômica.
O excesso de jornada, associado à pressão contínua por produtividade e sobrevivência financeira, compromete diretamente a disposição mental necessária para estudar, atualizar-se, aperfeiçoar-se e desenvolver novas competências profissionais. E isso produz um efeito perverso no próprio mercado econômico brasileiro: trabalhadores esgotados tornam-se mais vulneráveis à obsolescência profissional justamente em um cenário marcado por inteligência artificial, automação e profundas transformações tecnológicas.
O debate, portanto, não se limita ao número de horas trabalhadas. Trata da distribuição social do tempo. Em uma economia baseada no conhecimento, o tempo livre deixou de representar apenas descanso. Tornou-se condição necessária para aprendizagem contínua, atualização profissional e adaptação às transformações tecnológicas que remodelam o mercado de trabalho.
O empresário moderno investe legitimamente em máquinas, softwares, inteligência artificial e eficiência operacional. Contudo, o mesmo grau de preocupação raramente é direcionado ao desenvolvimento humano contínuo daqueles que sustentam o próprio sistema produtivo. Cria-se, assim, uma contradição estrutural: busca-se inovação tecnológica sem investimento proporcional na evolução intelectual, emocional e técnica do trabalhador.
O resultado é preocupante. Em vez de preparar pessoas para a transição econômica do século XXI, parte do modelo produtivo ainda mantém trabalhadores aprisionados em jornadas extensas, deslocamentos desgastantes, hiperconectividade e exaustão contínua, reduzindo drasticamente sua capacidade de qualificação e ascensão social.
Ainda são insuficientes os investimentos em políticas de requalificação (reskilling) e aprimoramento profissional (upskilling), especialmente na adaptação às novas tecnologias, à inteligência artificial, à transição verde e ao desenvolvimento de competências socioemocionais.
O economista José Celso Cardoso Júnior destaca que o fenômeno do desemprego estrutural, intensificado ao longo das últimas décadas ganha uma nova dimensão no século XXI, atingindo também o trabalho intelectual e do conhecimento: “A atual revolução tecnológica substitui não apenas o trabalho manual, mas também o intelectual. A inteligência artificial cria uma nova camada de desempregados estruturais – pessoas aptas, mas sem lugar fixo no mercado”.
Nesse aspecto, a discussão sobre a manutenção da jornada 6×1 revela algo muito mais profundo do que simples organização de escala semanal. O debate trata da possibilidade concreta de o trabalhador possuir tempo humano disponível para estudar, conviver socialmente, cuidar da saúde, qualificar-se, empreender, inovar e adaptar-se às novas exigências econômicas.
Uma nação que exige produtividade máxima, mas retira do trabalhador o tempo necessário para evoluir, acaba produzindo um paradoxo econômico: cobra competitividade internacional enquanto enfraquece internamente sua principal riqueza estratégica — o capital humano.
Pessoas verdadeiramente comprometidas com o desenvolvimento nacional deveriam compreender que prosperidade coletiva não se constrói apenas com crescimento econômico bruto, mas com trabalhadores capazes de evoluir junto com as transformações do mercado. Países mais desenvolvidos compreenderam há décadas que produtividade sustentável não depende apenas de tecnologia ou inovação isoladamente, mas da capacidade de equilibrar avanço econômico com saúde mental, educação contínua, tempo adequado de descanso e efetiva valorização humana. Afinal, sociedades economicamente fortes não são construídas apenas por máquinas eficientes, mas por pessoas capazes de pensar, criar, aprender, adaptar-se e evoluir continuamente.
O verdadeiro patriotismo econômico talvez esteja justamente na capacidade de conciliar eficiência produtiva com dignidade humana. Isso pressupõe que a racionalidade econômica e o desenvolvimento tecnológico estejam a serviço da vida humana. Não se tratam de objetivos incompatíveis. Ao contrário: o respeito à saúde, ao descanso e à dignidade do trabalhador tende a produzir ambientes mais sustentáveis, com menor absenteísmo, maior engajamento e melhores resultados organizacionais.
O problema é que boa parte do discurso contemporâneo ainda permanece presa à lógica da manutenção do “mais do mesmo”: jornadas extensas, disponibilidade permanente e exaustão normalizada como sinal de comprometimento profissional. Discute-se a preservação do modelo, mas pouco se debate a evolução qualitativa da experiência humana do trabalho.
Talvez o maior desafio contemporâneo seja justamente reconstruir esse equilíbrio. Isso exige uma mentalidade orientada à adaptação e à antifragilidade, na qual a tecnologia seja utilizada como instrumento de aprimoramento humano, e não mera ferramenta de substituição, conciliando inovação, produtividade e preservação de valores humanos fundamentais.
Porque uma sociedade verdadeiramente próspera não é aquela que apenas produz mais. É aquela que permite que seus trabalhadores tenham condições reais de crescer, aprender, adaptar-se e viver com dignidade enquanto produzem.
Referências (ABNT)
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
BRASIL. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Mercado de Trabalho: conjuntura e análise, n. 81, abr. 2026. Brasília: Ipea, 2026. Disponível em: https://www.ipea.gov.br. Acesso em: 26 maio 2026.
GAULEJAC, Vincent de. Gestão como doença social: ideologia, poder gerencialista e fragmentação social. Tradução de Ivo Storniolo. Aparecida-SP: Ideias & Letras, 2007. (Coleção Management, 4).
SOUZA, Aristeu Bento de. Estresse, ansiedade, assédio e burnout: “bem-vindos ao mundo do trabalho”. Jornal Diário Campineiro, Campinas, 13 out. 2025
CARDOSO JÚNIOR, José Celso. Palestra proferida no Congresso Brasileiro de Economistas – CBE 2025. Disponível em: [reportagem do Corecon-SP]. Acesso em: 10/maio/2026.
*Cyntia Ruiz Braga é mestre em Direito do Trabalho pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo – FDUSP. Pesquisadora e congressista pelo Núcleo Trabalho Além do Trabalho: Dimensões da Clandestinidade Jurídico-laboral e do Grupo de Pesquisa em Meio Ambiente de Trabalho (GPMAT), ambos pela FDUSP. Especialista em Direito dos Contratos (CEU), Direito Empresarial do Trabalho (FGV/SP). Graduada em Direito pela PUC-Campinas. Advogada. Professora em Cursos de Pos Graduação em Compliance, Direito do Trabalho e Processo do Trabalho. Diretora Regional de Campinas do SASP.
*Marcus Gama é Advogado Trabalhista e diretor de Comunicação do Sindicato dos Advogados e Advogadas do Estado de São Paulo (SASP).